quinta-feira, 13 de setembro de 2012

PM e governo: tráfico age em área do Exército em Gericinó

EXTRA

A presença de traficantes numa área do Exército em Gericinó, na Baixada, foi reconhecida ontem pelo poder público, Polícia Militar, Instituto Estadual do Ambiente (Inea) e até pela União. Os únicos que não admitiram evidências de bandidos na região foram os próprios militares. As prefeituras de Mesquita e Nilópolis disseram saber da ação de criminosos na mata e informaram à Polícia Militar. O alerta motivou operações do 20º BPM (Mesquita), apreensões de armas, drogas e detenções de suspeitos nos últimos dias.
A Polícia Militar informou que as operações ocorreram num lugar a mais de uma hora a pé da entrada do Parque Natural de Gericinó. Mas a corporação afirmou que os cinco acampamentos de traficantes estavam em área militar. Também foram encontrados vestígios que podem pertencer às seis vítimas da chacina.
A presença de bandidos no local também não é novidade para a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. De acordo com o coordenador Adriano Dias, do Centro de Referência de Direitos Humanos da pasta, houve uma mudança de perfil do tráfico nos últimos três anos, que passou a agir de forma mais ostensiva:
— Tivemos uma reunião, no mês passado, com o Conselho Comunitário de Nilópolis, quando moradores denunciaram a presença de traficantes armados na Chatuba, Gericinó e Nilópolis.

‘Obrigação profissional’
O coronel Saulo Chaves dos Santos, chefe de Comunicação Social do Exército, respondeu às denúncias dizendo que não recebeu nenhuma informação sobre a presença de traficantes na área de 53 quilômetros quadrados que pertence ao Exército.
— Nenhum órgão da Segu-rança Pública informou ao Exército sobre a existência de traficantes naquele local.
Mas o coronel Lima, também da Comunicação Social, teve outra reação. Após dizer que lê o jornal EXTRA apenas por obrigação profissional, jogou o exemplar de quarta-feira no lixo. A edição trazia a frase do pai de uma das vítimas da chacina como manchete, com a afirmação: “Área do Exército virou um parque do tráfico”.
O Ministério Público Militar divulgou que o procurador-chefe da Procuradoria de Justiça Militar no Rio de Janeiro irá solicitar esclarecimentos do Exército em relação aos fatos ocorridos.

‘Área de extremo risco’
A região em que os seis jovens foram mortos no bairro da Chatuba, em Mesquita, pertence ao Exército e integra o Campo de Instrução de Gericinó (CIG), utilizado para treinamento militar. Quem afirma é Marcelo Soares dos Santos, chefe da Área de Proteção Ambiental (APA) Gericinó-Mendanha desde 2009.
De acordo com ele, que é técnico do Instituto Nacional do Ambiente (Inea), a área era reconhecidamente de risco. Ele conta que avistou, há cerca de um ano, traficantes armados na parte baixa do CIG, quando realizava um trabalho de campo no Vale do Rio Socorro, na região da APA conhecida por Morro do Delamare.
— Na época, avistei três bandidos armados — recorda Santos. — Comuniquei à Secretaria municipal de Meio Ambiente de Mesquita. Mas a realidade é que a presença de traficantes no local era pública e notória. Eles usam e abusam da região.
Segundo o técnico, o Campo de Instrução de Gericinó foi criado pelo Exército na década de 1970. Mas, há cerca de dez anos, os militares deixaram de patrulhar o local ostensivamente, por conta de alguns embates com ambientalistas.
— Eles estavam pouco presentes na região. Prova disso é que não sabiam da existência dos acampamentos dos traficantes na mata, descobertos pela polícia. Acredito que haja mais deles, inclusive na área da APA.
Com base num mapa, o técnico apontou o caminho trilhado pelos jovens. Após o Rio Sarapuí, em Mesquita, “é área de extremo risco”.


Investigação do crime
Perícia na cachoeira
Uma perícia que será feita, na manhã de hoje, por uma equipe de peritos da Polícia Civil na Cachoeira das Pedrinhas, em Gericinó, pode indicar o local exato onde os seis jovens foram mortos no último sábado. O exame também poderá estabelecer o ponto exato onde o grupo foi capturado por traficantes.
Tortura
Laudos do IML revelam que os seis rapazes foram barbaramente torturados. As vítimas tinham cortes profundos nos pescoços e ferimentos nas cabeças; pelo menos duas delas tiveram os braços fraturados, e quatro foram baleadas na cabeça. Além disso, um dos jovens teve o pênis cortado. Os laudos já estão com os policiais da 53 DP (Mesquita).
vestígios e facas
De acordo com a diretora do Departamento de Polícia da Baixada Fluminense, delegada Tércia Amoedo, a perícia vai verificar, entre outras coisas, onde foram apreendidas facas com vestígios de sangue e roupas que podem pertencer às vítimas assassinadas.
Oitavo suspeito
Um oitavo suspeito de envolvimento na chacina, Daniel Dias Cerqueira dos Santos, de 23 anos, foi reconhecido, ontem, por parentes das vítimas. Ele afirmou ser inocente.

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