terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

NÃO SOMOS BANDIDOS FARDADOS

Cabo PM  Vivian Sanchez

Há exatamente um ano, quando saía de casa por volta das 07h00, com destino ao 36°BPM/St° Ant° de Pádua, fui surpreendida, ainda no portão, por um capitão e um tenente - ambos da minha OPM e dos quais não revelarei os nomes - que traziam consigo um Mandado de Prisão para mim e outros 10 (dez) Policiais Militares de BPMs distintos.
O capitão, tido pela maioria do efetivo como sendo um militar muito rígido, não conseguia esconder seu constrangimento e descontentamento em ser obrigado a cumprir aquele mandado: seus olhos estavam marejados por lágrimas que ele segurou até o fim. O tenente, recém chegado ao BPM, não logrou o mesmo êxito do capitão: as lágrimas brotavam em sua face e ele me olhava de um jeito como o de quem queria perguntar: - De onde você tira tanta força"?. Eu, que naquele momento ainda não tinha me dado conta (a "ficha ainda não tinha caído") do que significava aquele Mandado de Prisão - nunca tinha sido presa antes, nem administrarivamente - permaneci no controle de minhas emoções: calma, tranquila, sem sequer supor o que estaria por vir. Coloquei minhas bolsas dentro da viatura ostensiva e fui conduzida ao batalhão, que fica há menos de 100 metros da minha casa, por uma Equipe do Serviço Reservado "especialmente" composta para essa "missão".
Chegando ao BPM os colegas vinham me abraçar, desejar sorte e dizer que daria tudo certo. Alguns me olhavam com um olhar assustado e outros com admiração: a "ficha ainda não tinha caído"!
Achei que era uma prisão administrativa, que eu ficaria no batalhão por, no máximo, três dias; ledo engano.
Fui orientada a acautelar minha arma na reserva de material bélico da OPM, pois ninguém sabia por quanto tempo eu ficaria presa: a "ficha começou a cair" quando questionei o acautelamento do armamento: "se eu vou ficar aqui, para que acautelar minha arma"? "Não, Vivian! A ordem é para que você seja conduzida a Bangu 1". Naquele instante perdi a força que sustentava minhas pernas... Voltei a questionar: "Como assim Bangu 1"? "Lá é lugar de vagabundo, eu sou Policial Militar e não cometi crime algum para ser presa"! "É a ordem Vivian, a determinação é essa", foi o que eu obtive como resposta.
Comecei a andar desorientada pelo pátio da OPM. Muitos vieram conversar: tentavam me acalmar, mas não era uma tarefa fácil: como pode uma Juíza determinar a prisão de Policiais Militares e Bombeiros pelo fato destes terem reinvindicado para suas categorias salário justo e condicões dignas de trabalho em movimentos pacíficos e ordeiros?!? Como pode esta mesma Juíza mandar que estes homens e mulher - eu era a única - sejam presos em um presídio de segurança máxima, conhecido negativamente por ser o reduto de criminosos da mesma lapidação de "Fernandinho Beira-Mar"?!?
Minhas forças chegaram ao fim: sofri um desmaio do qual só recobrei os sentidos na Casa de Saúde para a qual fui socorrida e onde permaneci internada até as 16h00 daquela fatídica sexta-feita: um oficial médico da Policlínica de Campos foi "enviado" para me dar alta. Assim, eu poderia ser conduzida presa à Capital!
De volta ao Batalhão e de posse de toda a papelada relativa à minha prisão, fui conduzida ao Hospital Central da PM, onde após alguns exames, fui internada novamente, permanecendo naquele nosocônio até as 03h00 da manhã de sábado. Dali, a determinação era para que eu me apresentasse na 3a DPJM, em Nova Iguaçu. Quando chegamos na maldita 3a DPJM, não quiseram tomar as medidas pertinentes pois alegaram que era competência da 4a DPJM, Niterói.
Àquela altura eu já não tinha mais forças para ficar de pé; na verdade, a única vontade que eu tinha era a que um buraco bem profundo se abrisse na minha frente para que eu pudesse pular e acabar com aquilo tudo de uma vez. A vergonha tomava conta de mim. Embora eu soubesse que por onde eu passava todos sabiam o motivo de mnha prisão - muitos vieram me parabenizar por minha força e coragem - mas nada disso tirava de mim a humilhação de ser conduzida presa a um presídio de segurança máxima.
Chegamos à 4a DPJM por volta da 06h00. Lá ficamos sabendo que eu ficaria custodiada no BEP - Batalhão Prisional - e não mais em Bangu 1: foi um grande alívio para mim e para os colegas que faziam a minha escolta.
Depois de sair da 4a DPJM, ainda faltava passar na Corregedoria: todos estavam esgotados!
Dei entrada no BEP por volta das 09h00 de sábado: 26 horas após minha prisão em Pádua. Ambiente inóspito, sombrio...
Mas o pior ainda estava por vir: a hora da despedida. Nos abraçamos e as lágrimas insistiam em jorrar. Até quem estava trabalhando ali, me vendo pela primeira vez, foi tomado pela emoção: todos sabiam o motivo da mnha prisão e a injustiça que estava sendo cometida por aqueles que detém o "poder" nas mãos.
Meus amigos se foram, os portões se fecharam e lá estava eu, presa, sozinha - todos os outros foram levados para Bangu 1 - sem saber quantos dias iam durar aquela provação.
Fui muito bem recebida pelos policiais que lá trabalham e por alguns "acautelados". Conheci muitas histórias, muitas injustiças...
Ajoelhei muitas vezes e pedi força a Deus para suportar aquele momento. Durante uma de minhas orações, alguém bateu à porta me convidando para ir ao Culto das 18h00: percebi que não estava sozinha como pensava. Aquele era um sinal de Deus; mais um!
Pedi para que alguém me levasse ao local do culto: eu ainda não sabia andar lá dentro e sentia medo de ficar sozinha. Quando cheguei, a surpresa: era uma igreja, dentro do Batalhão. Deus é tão bom e misericordioso que o culto daquela tarde foi direcionado a mim: de alguma forma, Deus tocou o coração daquele Pastor que proferiu uma mensagem que encheu meu coração de paz e esperança. Sem saber de nada, me sentei ao lado da esposa do Pastor: éramos as únicas mulheres ali. Ela viu meu pranto e sentiu meu desespero; ao final do culto me chamou para conversar. Contei-lhe minha história e a dos outros que eu nem sabia se estavam mesmo em Bangu. Mais uma oração foi feita por nós e, na despedida, o Pastor olhou em meus olhos e disse: "a paz vai tomar o seu ser e mal nenhum acontecerá! Confie em Deus; apenas confie"!
Meu cárcere durou 08 (oito) dias, cinco dos quais sem saber notícias dos que foram trancafiados em Bangu. Eles chegaram no BEP dia 15, à noite, graças a uma guerreira chamada Gil Jardim - mãe do Cb Hamude.
A primeira parte do nosso pesadelo chegou ao fim no dia 18 de fevereiro, quando recebemos de volta nossa liberdade física.
Perdemos, ou melhor, nunca tivemos, nossa liberdade de expressão! Isso ficou muito claro com as prisões e exclusões.
Alguns foram inocentados, outros condenados e excluídos. Alguns foram reintegrados: Deus seja louvado! Três ainda permanecem excluídos: que Deus não lhes deixe faltar nada. Alguns, como eu, permanecem aguardando uma decisão: que Deus abrande o coração de nosso Comandante Geral para que este enxergue, de uma vez por todas, que não somos bandidos fardados e que o "crime" que cometemos foi o de querer um salário digno à condição de Polcial Militar e melhores condições de trabalho. Que este se lembre ainda que Policial honesto é aquele que busca melhoria salarial.

Depois de ter passado por tudo isso, e por tantas outras coisas que não posso escrever aqui, há alguns dias, o mesmo capitão que cumpriu meu Mandado de Prisão me fez a seguinte pergunta: "Como você se sente em relação a tudo isso que te aconteceu e o que ainda pode acontecer?"
Minha resposta: me sinto traída por uma maioria covarde que virou as costas para a minoria de bravos guerreiros que "botou a cara na reta". Foram quase seiscentos policiais submetidos a Conselho, passando necessidade, 18 foram excluídos - nem para doar R$5,00 por mês, o efetivo se uniu! Mas, mesmo depois de tanta maldade, carrego no peito o orgulho de não ter me corrompido, muito menos de ter me acovardado e traído os meus!!!

11 comentários:

  1. POLICIAL MILITAR - UM "HERÓI" TRATADO COMO BANDIDO

    Não importa o que os outros pensam ou dizem de nós. O que verdadeiramente importa é aquilo que realmente somos. Tenha sua consciência tranquila, mesmo que seja condenada. Não se esqueça de que Jesus foi condenado, e Herodes foi o vencedor momentâneo. Mas responda: qual dos dois foi verdadeiramente o vencedor?

    A PEC 300 AINDA NÃO FOI ESQUECIDA...

    ◦PEC-00300/2008 - Altera a redação do § 9º do art. 144 da Constituição Federal.

    - 06/02/2013 Apresentação do Requerimento de Inclusão na Ordem do Dia n. 6699/2013, pelo Deputado Major Fábio (DEM-PB), que: "Requer a inclusão na Ordem do Dia da PEC nº 300/2008, que estabelece que a remuneração dos Policiais Militares dos estados não poderá ser inferior à da Polícia Militar do Distrito Federal, aplicando-se também aos integrantes do Corpo de Bombeiros Militar e aos inativos.".

    Não é segredo para ninguém que o 2º turno não aconteceu porque o governo emperrou o nosso sonho, transformando-o em pesadelo. As eleições estão próximas e teremos uma grande oportunidade de mostrar se somos fortes ou fracos. Em 2014 teremos que trabalhar dobrado para colocar no poder um Presidente que esteja de fato comprometido com a dignidade dos profissionais da segurança, da educação e da saúde. Sejamos honrados e não esqueçamos de tudo que passamos nestes tempos de luta.

    Soldado da PMDF recebe R$ 4.956,79 (quatro mil, novecentos e cinquenta e seis reais e setenta e nove centavos) por mês, que é a soma de R$ 4.306,79 (quatro mil, trezentos e seis reais e setenta e nove centavos), mais auxílio alimentação no valor de R$ 650,00 (seiscentos e cinquenta reais). Lá, o Soldado tem uma remuneração melhor do que um Subtenente da PMERJ. O recruta da PMDF (aluno do CFSd) ganha mais do que um 1º Sargento da PMERJ. Esse é um dos motivos pelos quais os Policiais Militares do RJ estão abandonando a carreira. A profissão, no Rio, não é valorizada. É inimaginável alguém arriscar a própria vida por menos de R$ 5.000,00 (cinco mil reais) mensais!

    O GOVERNO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO PRECISA PAGAR UM SALÁRIO DIGNO AO POLICIAL MILITAR DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO.

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    1. Boa tarde companheiro sou inativo e concordo plenamente com a sua visão que temos que se unir para que os deputados coloquem a pec300 em votação no segundo turno,vamos pedir a união de todos vereadores eleitos nos estados da federação para nos dar uma força na câmara federal para mostrar aos senhores governadores que são contra a pec300, que 2014 vem ai e que ja temos varios vereadores eleitos independentes de partidos vamos eleger presidente e governadores que vejam a segurança pública,saude e educação como o alicerce da nação brasileira vamos juntos derrotaremos os inimigos !!!!

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  2. PEC300? É sério mesmo que alguns ainda sonham com isso? Salário de servidores estaduais devem ser pagos pelo Estado! Esqueçam PEC300! Já se acorvadaram como falou a nobre companheira e nem ao menos depositaram 5 ou R$10 para aqueles que foram excluídos e vem me falar de PEC300!?

    Agora aceitem a migalha de aumento que o governo dará aos seus servidores e fiquem sonhando (só sonhando mesmo) em voltar a escala 24x72 e 12x48!

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    1. companheiro vc esta com razão muitos não ajudam os companheiros que foram excluidos eu até ja me aborreci com varios companheiros da ativa por falaram pq foram se meter em greve agora sofre na pele,eu ja sou inativo mas dei e dou o maior apoio a todos aqueles que se manisfestaram por melhores salarios e condições de trabalho e um hospital mas decente com medicos etc..,estes mesmos elementos ja vi varias vezes fazendo para pedro para pegar propinas eles vão esquentar com salario jamais companheiro,agora a pec300 vamos sempre pensar positivo e tambem com o retorno do companheiros da pmerj e bmrj que foram excluidos um abraço e junto somos fortes !!!

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  3. Com o reajuste (26%) que será concedido no mês de março de 2013, o Soldado da PMERJ passará a ganhar apenas R$ 2.077,00, valor muito abaixo (R$ 597,88) do SALÁRIO MÍNIMO NECESSÁRIO estimado pelo DIEESE, que é de R$ 2.674,88 (dois mil, seiscentos e setenta e quatro reais e oitenta e oito centavos). A referida divulgação visa garantir o atendimento das necessidades vitais básicas, previstas no Artigo 7º, Inciso IV, da Carta Magna. O Governo do Estado do Rio de Janeiro poderia acabar com os Ranchos da PMERJ e pagar um auxílio alimentação no valor de R$ 650,00 (seiscentos e cinquenta reais), através de um Cartão-benefício voltado ao pagamento das refeições (Cartão Refeição Visa Vale ou Sodexo). Esta seria uma prova de honestidade do Excelentíssimo Senhor Governador do Estado do Rio de Janeiro que daria mais DIGNIDADE ao POLICIAL MILITAR.

    http://trovatore.dieese.org.br/analisecestabasica/salarioMinimo.html

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  4. Parabéns Vivian pela seu depoimento, parabéns pela sua coragem!

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  5. parabens guerreira pela coragem, a PMERJ nao te merece.....

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  6. os humilhados serrão exaltados,e para o CABRAL,e seus capachos,restará só a cadeia e o esquecimento.

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  7. Vivian, conheço sua luta, mas acho que a PMERJ não é lugar para pessoas dignas e honestas como você. Corrupção existe em qualquer instituição, mas na PMERJ os corruptos são exaltados e tidos como espertos e os honestos e dignos como você são humilhados e presos. Acho que você deveria pensar em fazer concurso para outras polícias (PF, PRF ou PCERJ) que apesar de terem problemas com corrupção, você pelo menos vai poder reclamar e reivindicar algo sem ser presa e enviada para BEP. Lembra do caso do PF que executou em Agente Penitenciário na linha vermelha? Se ele fosse PM, você acha que ele estaria solto como está? O problema da PMERJ é que juízes e promotores tem um profundo preconceito contra nossa instituição, prendendo prontamente qualquer PM, mesmo que haja uma garantia na lei de responder em liberdade. Pense nisso, pois a PMERJ é movida pela corrupção e esperteza e você merece coia melhor. Que Deus te abençoe.

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  8. Soldado da PMDF recebe R$ 4.956,79 (quatro mil, novecentos e cinquenta e seis reais e setenta e nove centavos) por mês, que é a soma de R$ 4.306,79 (quatro mil, trezentos e seis reais e setenta e nove centavos), mais auxílio alimentação no valor de R$ 650,00 (seiscentos e cinquenta reais). Lá, o Soldado tem uma remuneração melhor do que um Subtenente da PMERJ. O recruta da PMDF (aluno do CFSd) ganha mais do que um 1º Sargento da PMERJ. Esse é um dos motivos pelos quais os Policiais Militares do RJ estão abandonando a carreira. A profissão, no Rio, não é valorizada. A PMDF não é melhor do que nenhuma outra Polícia Militar! Não há nada que justifique o salário do PM de Brasília ser maior... A PEC nº 300/2008 tem que ser aprovada!

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  9. Meus amigos, braços cruzados. Nao vamos mais ficar prendendo bandido com cara de mau, enquanto nossos comandantes aainda pegam dinheiro do jogo di bicho e, nao estao nem ai para os indices de criminalidade. No dia da greve eu estava la, falei com um dos agitadores a greve, que nao recomendasse a greve e sim operacao padrao e que quem fosse contra agreve fizesse uma carta a mão, dizendo ao desgovernador, ser contra a greve e que abriria mão de qualquer aumento de salario. Hoje temos ai nossos colegas condenados, soube que os excluidos estão retornando. E vai aumento até para aqueles que foram contra. E ai, vai continuar prendendo alguém? Vão continuar achando que o mundo vai mudar por que vc é um policial maravilhoso que cumpre seu dever. Ahhh me perdoem a mas foda-se a lei. Infelizmente nos também sofremos com isso, mas se cruzarmos os braços, e so passear de vtr e atender os 120, 631 e resolvam tudo no 912...

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