segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Pilotos recebem gratificação da PM por ‘voos fantasmas’

JORNAL O DIA 
A imponente aeronave P-31 Navajo prefixo PT-KNY pertencia ao traficante colombiano Gustavo Duran Bautista, apontado como braço direito do megatraficante Juan Carlos Ramírez Abadia. Com a prisão de Bautista, capturado em 2007 pela Polícia Federal quando tentava decolar do Aeroporto Campo de Marte, em São Paulo, o avião deixou de servir ao narcotráfico para despencar como um ‘elefante branco’ no orçamento do estado.
Sob responsabilidade da Polícia Militar desde janeiro de 2008, a aeronave não costuma sair do solo. Mesmo assim, representa gastos expressivos no orçamento do estado com manutenção, hangariagem, limpeza e pagamentos de gratificações a pilotos comerciais a serviço do Grupamento Aeromóvel (GAM) da corporação.




Aeronave que pertenceu a traficante não voa, mas representa gastos para o Estado do Rio: manutenção, hangariagem e pagamento de gratificações a pilotos comerciais

Um comandante com mais de mil horas de voo, por exemplo, recebe um adicional de até R$ 7,5 mil por mês só para ficar à disposição, para decolagens que não acontecem. Em dezembro do ano passado, o cabo Jorge André de Queiroz ganhou R$ 10.590,73, entre salário e gratificação.Ele recebeu o adicional até quando ficou afastado do grupamento.
Depois da devolução da aeronave Beechcraft Baron 58, que pertencia ao traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, o cabo Queiroz foi transferido para o 14º BPM (Bangu). Ficou lá por 22 meses, entre outubro de 2011 e agosto do ano passado, quando voltou ao GAM. Mesmo afastado da unidade responsável pelo transporte aéreo da corporação, ele ainda recebeu a gratificação paga aos pilotos.
‘Estou de folga'
O pagamento descumpriu o decreto 41.038, assinado em 29 de novembro de 2007 pelo governador Sérgio Cabral, que não prevê adicional em caso de transferência para outro batalhão.
Enquanto fica à disposição para “voos fantasmas” da Polícia Militar, o cabo Queiroz pilota aviões comerciais a serviço da Líder Aviação, onde é conhecido apenas como piloto Jorge André.




Cabo Jorge André de Queiroz
Ele foi encontrado pelo DIA na sexta-feira à tarde, no Aeroporto Santos Dumont. “Sou policial militar, mas estou de folga. Então, posso fazer o que eu quiser. Mas se você disser que trabalho na Líder, eu falo que é mentira”, avisou, enquanto se preparava para pilotar uma aeronave. 
Questionado sobre eventuais voos a serviço da corporação, o piloto disse que as informações só podem ser passadas pelo GAM.

Mais de R$ 230 mil por ano só com manutenção
Avaliada em R$ 400 mil, a aeronave Navajo é responsável por gastos nada modestos. Para se ter uma ideia, só com hangariagem, limpeza e seguro, o estado desembolsou mais de R$ 230 mil em apenas um ano, entre outubro de 2011 e 2012.
O avião estará à disposição da Secretaria de Segurança até a conclusão do processo contra o traficante colombiano Gustavo Duran Bautista, que foi indiciado por tráfico internacional de drogas, associação e financiamento para o tráfico, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Só depois de uma eventual condenação, a posse do avião será definitiva.
Em nota, a Polícia Militar informou que, em fevereiro de 2011, o comando-geral da corporação solicitou a devolução da aeronave. Até hoje, no entanto, aguarda uma resposta ao pedido.
A corporação confirmou que é fiel depositária de um avião “em perfeitas condições de aeronavegabilidade”, sob os cuidados de uma empresa responsável pela manutenção em Campo Grande (MS). Fabricada em 1974, a Navajo pode transportar seis passageiros e dois tripulantes.
A aeronave Beechcraft Baron 58, devolvida pela PM há mais de dois anos, foi apreendida próximo a Cuiabá, em Mato Grosso, enquanto carregava cerca de 500 quilos de cocaína a mando do traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, em 2001. Em junho de 2012, a Beechcraft Baron 58 foi então doada pelo governo federal ao Estado do Paraná, para transporte de pessoal.
Corregedoria abre inquérito para investigar possíveis irregularidades
Após ser informado na sexta-feira pelo DIA do pagamento do adicional ao cabo Jorge André de Queiroz durante os 22 meses em que ele atuou no 14º BPM (Bangu), o coronel Luís Castro, comandante-geral da Polícia Militar, determinou a abertura de um inquérito na Corregedoria da corporação, para apurar “possíveis irregularidades com relação à concessão de gratificações a pilotos”.
O setor responsável pelo pagamento das gratificações aos pilotos é a Diretoria de Cadastro de Pagamentos (DGP), subordinada à Secretaria de Planejamento e Gestão (Seplag). De acordo com o decreto 41.038, o pagamento do adicional a pilotos só é mantido durante treinamento, férias, tratamento de saúde, luto, atividade junto a autoridades e licenças maternidade, paternidade ou matrimônio.
O cabo Queiroz foi incorporado ao GAM há cerca de dez anos. Mas só assumiu a condição de comandante de aeronaves a partir de 26 de janeiro de 2006. De setembro para cá, Queiroz não foi incluído nas escalas de voo organizadas pelo GAM.
Para justificar o uso do avião que pertencia ao traficante Fernandinho Beira-Mar, apreendida em 2001, o GAM fez algumas missões de transporte de órgãos. Mas como esse tipo de serviço trazia altos custos, o avião foi devolvido. E as missões, canceladas

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