quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Não é só no batalhão: policiais civis da delegacia de Bangu são presos por receber propina até de clube de futebol

De acordo com o MP, até o Bangu Atlético Clube, tradicional time de futebol da Zona Oeste, tinha que pagar propina para realizar festas em sua sede social

Em Bangu, não eram só policiais militares que cobravam propina para fazer vista grossa aos crimes. Segundo denúncia do Ministério Público, agentes da 34ª DP (Bangu) também recebiam dinheiro de empresários, mototaxistas e camelôs para não coibir irregularidades. O documento revela que viaturas oficiais eram usadas para buscar a propina na sede das empresas e, algumas vezes, as transações aconteciam dentro da delegacia, chamada de “balcão de negócios” pelos promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), que assinam o texto.
De acordo com o MP, até o Bangu Atlético Clube, tradicional time de futebol da Zona Oeste, tinha que pagar propina para realizar festas em sua sede social. A denúncia revela que Carlos Antônio Torres — ex-chefe do setor de investigações da delegacia e “homem de confiança” do então delegado titular da distrital, Jader Machado Amaral — “chegou a manter contato direto telefônico com Antônio Carlos Gomes de Assis, presidente do Conselho Fiscal do Bangu Atlético Clube, tendo marcado um encontro para recebê-lo, a fim de negociar o pagamento de propina na 34ª DP”.
O contato entre os dois teria acontecido antes do carnaval de 2013. Em contrapartida, os agentes da delegacia não atuariam “na repressão à entrada de crianças e adolescentes e à venda de bebidas alcoólicas de forma indevida”.


Além de Carlos Antônio Torres, foram denunciados o agente Joel Nobre Fernandes, também lotado na 34ª DP, o sargento da PM Jorge José de Oliveira Santos e o PM reformado Carlos Alberto Braz de Oliveira. Todos tiveram prisão preventiva decretada no último mês de julho pela Justiça e estão presos.
Na denúncia, feita com base numa investigação da Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança, os promotores afirmam que Joel era responsável por “pressionar os comerciantes quanto ao pagamento da propina”. Segundo o texto, os agentes faziam uso de ameaças para garantir os pagamentos: “os denunciados ameaçavam sacudir geral, ou seja, fazer operações policiais repressivas ao comércio de produtos falsificados”.
Na última segunda-feira, seis oficiais — incluindo o antigo comandante, Alexandre Fontenelle Ribeiro de Oliveira, atualmente lotado no Comando de Operações Especiais (COE) — e 18 praças do 14º BPM (Bangu) foram presos por usarem a estrutura do batalhão para abrigar uma quadrilha que exigia propinas de empresas de ônibus, motoristas de vans, mototaxistas e comerciantes do bairro. Em troca, os policiais não coibiriam irregularidades. As prisões foram desencadeadas a partir de investigações do Gaeco e da Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança.

PM atuava em escala fantasma para pegar ‘arregos’
Os promotores do Gaeco também acusam o sargento Jorge José de Oliveira Santos de ter uma “escala fantasma” na delegacia para ter direito a uma parte do pagamento de propinas recebidas pelos policiais civis. Segundo a denúncia, Jorge “integrava, de forma anômala e irregular, equipes de ‘policiamento civil’ da 34ª DP, entregando intimações policiais e contribuindo, na forma ativa, na intimidação daqueles que não concordavam em pagar as propinas para o grupo criminoso”. O sargento também responde pela usurpação de função pública.
Já o PM reformado Carlos Alberto Braz, segundo o documento, tinha a função de arrecadar a propina de camelôs para o resto da quadrilha, já que “atuava como pequeno empreendedor no Mercado Popular de Bangu, o que facilitava a arrecadação das propinas e repasse aos demais integrantes”. Os donos de cada uma das 123 lojas do local tinham que pagar, semanalmente, de R$ 50 a R$ 100 a quadrilha. Quem concordasse em pagar o valor entrava, segundo o MP, para o “caderno de colaboradores da 34ª DP”.
Os promotores do Gaeco enviaram ofício à Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva para que o órgão avalie a necessidade de se instaurar um inquérito civil para apurar o envolvimento do delegado Jader Machado Amaral com os demais denunciados. Segundo o MP, Jader tinha “relação de confiança” com o chefe de investigação, inspetor Carlos Antonio Torres. Procurada, a Polícia Civil informou que Jader, atualmente, está lotado na Delegacia de Combate às Drogas e não existe nenhum procedimento aberto contra ele na Corregedoria Interna da Polícia Civil.
Já o presidente do conselho diretor do Bangu, Jorge Varela, afirmou, por telefone, que nunca foi informado sobre nenhum pagamento do clube a policiais civis no ano de 2013.

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