segunda-feira, 18 de abril de 2016

Governo fica com valor de empréstimo de servidor descontado em folha


Se já não bastasse o fato de não ter recebido na quinta-feira o salário da aposentadoria como professora do estado, por ganhar acima de R$ 2 mil líquidos, Lídia Reis, de 69 anos, ainda tinha mais uma preocupação. O medo agora é de ter o nome negativado, uma vez que, sem pagamento, não tem como fazer o desconto no contracheque do crédito consignado que contraiu no fim do ano passado. Mas o que ela não sabe é que, segundo o diretor da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), Alex Sander Gonçalves, o estado já não vem fazendo os repasses dos empréstimos dos servidores estaduais às instituições financeiras desde janeiro deste ano. A dívida acumulada já chegaria a R$ 1,5 bilhão. Gonçalves afirma que os valores das parcelas são descontados na folha, mas o governo tem ficado com o dinheiro. A Secretaria estadual de Fazenda, no entanto, nega que o atraso seja tão longo e assegura que os repasses só deixaram de ser feitos em março. A pasta disse ainda que, diante da crise, está priorizando o pagamento dos servidores.
No fim do ano passado, sem dinheiro para pagar a totalidade do décimo terceiro salário, o estado anunciou que faria o pagamento parcelado. Também orientou os servidores públicos, que quisessem receber o valor integral, a fazer empréstimo no Bradesco, banco que tem as contas de todo o funcionalismo, se comprometendo a arcar com os juros da operação. Outros bancos também ofereceram linhas de crédito aos servidores. Devido à inadimplência, esses bancos suspenderam a concessão de crédito consignado a funcionários públicos estaduais, segundo Gonçalves. A ABBC representa 86 instituições financeiras de pequeno e médio portes, sendo que cerca de 10 delas ofereceram o empréstimo aos servidores. O diretor da entidade diz que a inadimplência não atinge só os seus associados:

— O atraso não é só com os bancos da associação. Os grandes bancos também não estão recebendo os repasses. Nós temos valores a receber que foram descontados em dezembro e ainda não foram repassados. São recursos que não pertencem ao estado, mas que estão com ele (governo). A situação é bem crítica — observa.

De acordo com Gonçalves, a carteira de créditos consignados para servidores estaduais, atualmente, é da ordem de R$ 10 bilhões com vários bancos. Ele informou que o valor mensal descontado dos servidores é de cerca de R$ 500 milhões. A dívida dos últimos 90 dias, de acordo com ele, é de R$ 1,5 bilhão.

— É uma questão parecida com a do governo federal, na medida que se trata de usar um benefício que não pertence ao estado — afirma o diretor da ABBC, referindo-se às pedaladas fiscais atribuídas à presidente Dilma Rousseff.

NOMES PODEM IR PARA O SERASA

Gonçalves assegurou que nenhum associado da ABBC encaminhou nome de servidor público para o registro de inadimplentes do Serasa. Ele admitiu, no entanto, que o risco é grande. O procedimento varia de banco para banco.

— Até agora, nenhum dos nossos associados recorreu também à Justiça, pois estão aguardando um contato da Secretaria de Fazenda — disse.

Procurado pelo GLOBO, o Bradesco informou, por nota, que “não comenta operações ou posições de seus clientes em respeito às normas que regem o sigilo bancário’’. O Itaú, que já deteve a conta do estado, disse que não comentaria o assunto.

O estado também não está fazendo repasses de contribuições sindicais descontadas em folha. Segundo o Sindicato dos Agentes Penitenciários, o último repasse foi feito em janeiro. A entidade afirma receber mensalmente cerca de R$ 105 mil em contribuições. A Associação dos Soldados e Cabos da PM e do Corpo de Bombeiros vive a mesma agonia: desde fevereiro, não estaria recebendo os R$ 130 mil mensais. Os repasses também não são feitos ao Sindicato dos Profissionais de Educação da Faetec, que entrou no vermelho este mês. 

Um comentário:

  1. Uma única palavra define a situação dos servidores do Estado do Rio de Janeiro: D E S R E S P E I T O .

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